Café com livro: Deuses Americanos – Neil Gaiman (2001)

Em minhas reflexões, pensei em como nessa conjuntura de perturbações políticas, econômicas, sociais e culturais, não basta termos o direito.

Temos que ir além disso.

Temos que comprar o direito.

Já dizia Orwell em sua clássica passagem de A Revolução dos Bichos:

“Todos os bichos são iguais
mas alguns bichos são mais iguais que outros.”

É uma frase curta, mas que se tornou capaz de evidenciar a podridão do sistema capitalista, e de tudo que o toca. Sei que a crítica de Orwell era justamente ao Partido Comunista da União Soviética liderado por Stalin no período escrito (1945). Meu conhecimento acerca do governo stalinista é parco, mas sei que, segundo as estatísticas e a inexistência da URSS hoje em dia, não foi benéfico para mais de 9 milhões de russos (uma estimativa, pois os números não são exatos) que foram mortos sob as ordens do líder.

Retomando, acredito na espiritualidade do capitalismo como alegava Webber. Isso não novidade no meio acadêmico e literário, mas escrevo aqui para deixar registrado a mim mesma caso eu venha me esquecer algum dia. O capitalismo se enraizou em nossas mentes, vidas, ambições, sonhos e pesadelos, nas relações que temos com o próximo e com nós mesmos, e essa forma nos sufoca a cada dia que se passa.

Estou lendo o livro chamado Deuses Americanos, de Neil Gaiman (2001). A obra analisa o processo de decadência das religiões antigas e da espiritualidade que nasce a partir destas, em prol da ascensão do espírito do capitalismo na sociedade norte-americana. Gaiman utiliza da personificação dos deuses, espíritos, criaturas mitológicas oriundas de antigas civilizações, como egípcia, grega, árabe, anglo-saxônica e outras que vão surgindo pela história. Essa personificação torna-se interessante, pois todos os deuses são pessoas em situações degradantes, falidos, prestes a serem esquecidos em virtude da ausência de adoração e crença por parte da população.

A internet, televisão, redes sociais e dinheiro deram vida aos novos deuses americanos. Eles estão em todos os lugares, participando ativamente da vida das pessoas. Por outro lado, estas dedicam seu tempo e adoração a esses novos deuses.

Voltando à realidade, os infiéis desse deus do dinheiro morrem de fome, moram nas ruas, lhes são negados os direitos “básicos” de todos os humanos.

Se todos têm direitos, por que motivo há pessoas morrendo de inanição, passando os dias revirando lixos e dormindo nas ruas durante a noite? Por que muitos morrem nas filas de hospitais, acometidos por doenças que podem ser evitadas com um “simples” saneamento? Essas críticas são básicas, assim como os direitos implícitos nelas, porém, na nossa realidade, apenas os privilegiados são capazes de revogar tais direitos.

Suponho que os novos deuses almejem nossa ética, nossa moral, nossa empatia, nosso senso de justiça, e que nos tornemos seres humanos desprovidos da capacidade de enxergar o outro em nós mesmos. Afinal, somos complexos e diferentes, porém ainda detemos necessidades básicas comuns a todos. Creio que o dinheiro nos remova dessa condição de humano, nos transformando em deuses. Nossa ética e qualquer empatia são suplantadas pela ambição de sermos maiores… porém raramente melhores. Talvez os novos deuses induzam nosso desejo antigo de nos tornarmos deuses: controlar a natureza a nosso favor, Adoração é o que precisamos. Nada em troca. Deuses egoístas nos tornamos.

E quando olhamos lá embaixo, para os seres humanos carregando seu fardo de serem humanos – e, portanto, terem necessidades básicas e sendo incapazes de atendê-las – o que sentimos?

Repulsa? Como assim você não tem comida na sua geladeira? Por que você não tem uma cama para dormir? Então quer dizer que você não pode utilizar o nome que você mais se identifica?

Percebemos que o que temos não são direitos.

Temos dinheiro.

E assim como o dinheiro, os direitos são voláteis, pois está intrínseco à posse do primeiro.

Nada nos é garantido. Nesse sistema, temos que estar sempre lutando como animais para conseguirmos sobreviver. Talvez por ainda não termos nos enxergado como humanos, e, desse modo, sermos incapazes de ver o outro da mesma forma.

Talvez seja o destino  vivermos nessa lógica… Assim como talvez seja o destino transformá-la.

Domar a animosidade do capitalismo selvagem que se acha Deus.

 

 

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