Museu del Prado

1501260758701.jpg

Confesso que fiquei tentada a cortar essa foto por não me agradar minha silhueta vista dessa forma. Essa foto foi tirada pela minha mãe de forma – acredite ou não – espontânea, pois ela gostou do arranjo dos quadros e gostaria de fazer algo semelhante na sala de nossa casa. O arranjo esta ótimo… mas eu não.

Bom, não sou apenas eu a compartilhar dessa opinião. Nunca foi, na verdade, provavelmente nunca será. Talvez eu a tenha pelo fato de que cresci ouvindo a – maldita – opinião alheia sobre meu corpo e, de alguma forma, a incorporei ao meu modo de me olhar.

e como é cruel nossa opinião sobre nós mesmas.

Vejo meus ombros largos e me pergunto o motivo. Bom, esse eu sei dizer: alguns anos de natação intensa me garantiram costas avantajadas. minha dedicação no esporte me propiciou medalhas, reconhecimento e… costas largas. São tao hediondas assim? o que há de errado em não ter um tronco estreito e delicado? Essas perguntas são retóricas, caro leitor, pensadas para a tua mera reflexão.

Prossigamos com a analise.

Outro ponto de extrema rejeição entre meus familiares, sobretudo os do sexo masculino (sim, meus tios paternos despejam “opiniões” sobre meu corpo. doentio, eu sei), são minhas pernas. Antes de atribuir qualquer adjetivo a elas, devo ressaltar que sofri um acidente aos 5 anos de idade, quebrei os dois fêmures ao meio e o braço direito. Passei dois meses internada num hospital em São Paulo sem poder sair da cama para absolutamente nada. Tive que reaprender a andar… aos 6 anos de idade. Não sou entendedora dos termos médicos, mas quando um músculo fica inutilizado por muito tempo, ele atrofia. E foi o que ocorreu com os músculos das minhas frágeis pernas infantis: dois meses sem utilizá-las me renderam pernas atrofiadas, que, na minha visão, são finas e desproporcionais ao meu corpo, principalmente as minhas costas largas.

E de novo: qual o problema das minhas pernas finas? Por que motivo eles insistem em criticá-las de forma tao invasiva e ridícula? Fui quebrada em três lugares do meu corpo, tive anemia, pneumonia e minha infância parcialmente interrompida; fui obrigada a reaprender a andar quando todos os meus colegas de turma aprendiam a ler. Minha perna direita ainda me lembra todos os dias como aquele acidente mudou minha vida e dos meus pais. E ele me trouxe conseqüência físicas e emocionais.

Então por que vocês me olham com deboche e desprezo quando meu corpo foi moldado pelas historias da vida?

Eu sobrevivi ao acidente. Eu sobrevivi à anemia, pneumonia, às cirurgias – que me tiravam o sono na noite anterior de acontecerem -, às dores físicas, aos banhos infernais regados de dor deitada numa cama, ao tédio, à incapacidade de brincar e, acima de tudo, sobrevivi a incapacidade de ler.

Lembro-me de pedir para minha tia ler os gibis para mim. Eventualmente, ela se cansava. Eu os pegava e inventava historias a partir dos desenhos. Desconfio que foi a partir dai que minha imaginação viu a oportunidade de florescer e tomar conta de tudo que habita em mim. Eu sobrevivi.

Muitas sobreviveram por inúmeros motivos diferentes do meu: violência física e/ou psicológica, acidentes naturais, mutilação… são vários. Nosso corpo carrega essas histórias cujo o desdobramento nem sempre resultam em lembranças boas.

Mas eles fazem parte de nós, e o que fazemos a partir deles revela quem somos nós.

Somos arte. A vida é uma arte. Somos moldados por ela, somos seu produto, sua obra.

Somos seu arranjo e merecemos ser apreciados os quadros expostos nos museus.

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s