Peregrina Lunar

“Veja aquela montanha no horizonte.” O pai apontou o pico nevado encoberto de nuvens. “É a montanha mais alta da região.”

“Dizem quem é assombrada.” Segredou a filha, já animada pela história porvir.

“Lá mora o mestre mais sábio que já vagou por essas terras.”

“Ele ensina o que?”

“Ensina quem verdadeiramente somos.” O pai atravessou o vão da porta da frente da casa e olhou para a filha, com a expressão séria. “É para lá que tu deves te dirigir a partir deste momento. Retorne somente quando conhecer o mestre.” E fechou a porta da casa com firmeza, porém com pesar no olhar.

A menina, desentendida, foi obrigada a partir de seu lar, sem vestimenta, sem alimento e sem despedidas. Rumo a um ermo destino desconhecido e, possivelmente, assombrado. Ninguém em sua vila se prontificou a ajudá-la: pelo contrário, mandavam-na embora, pois, segundo todos, a menina não pertencia mais aquele vilarejo.

Ela então partiu.

Caminhou até a vila vizinha, trabalhou por alguns dias em troca de comida, abrigo e conhecimento. Logo, ela viu-se obrigada a partir novamente, andando pela região, buscando o caminho para a montanha mais alta.

A garota, antes vulnerável e inexperiente, vagava de vila em vila, observava o cotidiano do povoado, adquiria experiência laboral, mental e espiritual, ganhando maturidade e desejo crescente de chegar até o mestre. Paulatinamente, a menina notou que era esperada em certos vilarejos, nos quais passou a ser chamada Peregrina Lunar: durante a Lua Nova, uma moça simpática chegava nos vilarejos, pedindo abrigo e alimento e, em troca, ela contava histórias sobre seres elementais para as crianças, ensinava sobre ervas medicinais às curandeiras.

Já durante as últimas horas do dia, a Peregrina esgueirava-se por debaixo dos lençóis de moças sorridentes e rapazes convidativos, mostrando-lhes a doce língua da natureza e suas palavras secretas. Quando a Lua prosseguia em seu ciclo e tornava-se cheia, Peregrina deixava as vilas para trás e fazia da floresta o seu lar, uma fase de reflexão sobre tudo que havia aprendido no período que ficara no passado.

Após tantos anos, ela chegou ao topo da montanha mais alta da região, Peregrina adentrou no pequeno templo localizado na última légua de seu caminho.

“Mestre!”, ela chamou. “Mestre!”. Não parecia haver ninguém no templo daquele lugar inóspito. “Mestre?!” Ela repetiu enquanto atravessava o terraço descuidado, avistando em um grande espelho pendurado na parede oposta à entrada.

Enquanto caminhava, o reflexo da Peregrina crescia no espelho e ficava mais nítido na superfície manchada do objeto. A cada passo em frente, ela compreendia o sentido de sua jornada. Apenas ao  encarar sua própria imagem no espelho e ler as palavras rabiscadas nela, a Peregrina Lunar sorriu para si mesma e agradeceu. “Obrigada, mestre.”

Ela virou-se e fez o caminho de volta, ainda não sabendo seu novo destino, sem esquecer as palavras deixadas para trás.

“Tu és teu próprio mestre.

Reaprenda a ser tu mesmo e

Dominarás a arte de viver. “

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